HOMENAGEM PÓSTUMA
AO QUERIDO AVÔ DR. RAIMUNDO DE OLIVEIRA BORGES
Toda a região do Cariri nestes últimos dias 27 e 28 sentiu-se entristecida, como que uma nuvem negra pairassem sobres os olhos e corações de todos da nossa querida Cariri, enlutada pela perda física de um dos seus filhos mais honrados, o Dr. Raimundo de Oliveira Borges. Mas apesar das explicações metereorológicas, coincidência ou não, as duas últimas chuvas nestes respectivos dias, para muitos de nós foram recebidas como lágrimas dos céus, não de tristeza, mas de felicidade de todos os nossos entes que já se foram, que em festa, os recebiam ao lado do Grande Pai. Ao tempo que, apesar de sua imagem está perpetuada em nossos corações, ao menos, as águas que caíam limpavam os céus e os espíritos de todos nós, varrendo um pouco as sombras enegrecidas.
Aos 02 de julho de 2007 proferi discurso em nome da família e aqui transcrevo uma curta passagem; “(...) baixo na estatura, mas um gigante na sapiência” (...). E assim viveu os seus 102 anos, lúcido, ereto e produtivo intelectualmente.
Nascido aos 02 de julhos na antiga São Pedro, hoje Caririaçu. Tendo como seus genitores Clemente Ferreira Borges e Maria José de Oliveira Borges, mais intimamente conhecidos, respectivamente, como “Borge Véi” e “Mãe Nã”. Sendo o caçula de uma prole numerosa de 7 filhos: Domingos, Afonso, José, Rosa, Maria de Lourdes, Ana e Raimundo de Oliveira Borges.
Aos 16 de julho de 1932 contraiu lanços matrimoniais com Iraides de Sousa Borges, em Lavras da Mangabeira, terra natal de sua cônjuge. Sempre manteve estreitos vínculos afetivos com os seus parentes lavrenses, inclusive sendo presenteado pelo sogro Alexandre Bezerra de Sousa com o seu anel de formatura. Era querido pelos cunhados e sobrinhos lavrenses.
A grande matriarca e querida avô Iraides foi sua coluna basilar, segundo meu próprio avô foi: “(...) foi a minha âncora por mares nem sempre bonaçosos”.
Desta feliz união deram a luz a 9 filhos: Iracema, Rui, José Gil, Iradi, Raimundo Alberto, Iris Maria (a primeira), Roberto, Iris Maria, Ismênia. De suas sementes, raiz de uma frondosa árvore familiar, nasceram 26 netos, 35 bisnetos e 1 trineto. Ao encontro do pai já se foram seus filhos Iris Maria (a primeira), Raimundo Alberto e Zé Gil. Dos seus bisnetos, transformados em anjos, já se foram Alberto, Tiago e Alexandre.
Sem fazer apologia ao que já se sabe, meu avô foi um vencedor. Filho de um comerciante de Caririaçu, homem de futurista visão, também atuante no ramo de Engenho e comércio de tecidos, resolveu, aconselhado pelos demais filhos, dentre eles Afonso, Cazuza e Domingos, investir nos estudos do meu avô. Reconheceram no filho ou no irmão caçula a inclinação às ciências e não ao comércio. Desde cedo meu avô, mesmo muito jovem, era convidado a proferir os discursos às autoridades que visitavam a sua cidade.
Após as primeiras letras em sua cidade natal, seguiu para o Crato, onde deu continuidade aos seus estudos secundários no Seminário São José,
Seguiu para Fortaleza com a pretensão de ingressar na Medicina, como ele mesmo disse: “doido, doido para ser médico na Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus na Bahia. Deixei o curso no segundo ano. Não tinha que ser médico. A Deusa Temis, Deusa do Direito, arrebatou-me para a sua religião. Tinha que ser Advogado”(...).
Muitas foram as funções exercidas pelo meu avô, que furto aqui enumerá-las na íntegra pela impossibilidade do reduzido espaço que disponho.
Imagino aqui as dificuldades que meu avô teve que enfrentar, deixando a farmácia que possuía em Caririaçu e já com dois filhos e ter que se deslocar até a capital, Fortaleza, para concluir seu Curso de Direito. Afonso, um dos seus irmãos mais queridos, assumiu a gerência do estabelecimento para possibilitar a realização do sonho do irmão. Imaginemos as dificuldades nos anos 30 ter que ir até a capital estudar.
Sempre tendo o apoio de sua grande esposa. Concluiu seu curso jurídico em 1937, sendo aclamado pela turma de 47 integrantes, dos quais faziam parte grandes nomes, futuros governadores, jornalistas e juristas, como: Wilson Gonçalves, Walter de Sá Cavalcante e Fran Martins, o orador da turma.
Iniciou seus mister profissional como Promotor. Passando pelas comarcas de Tauá, Missão Velha e finalmente o Crato.
Figurou por um breve espaço de tempo na política sendo Secretário Municipal, Prefeito Interino do Crato, Suplente de Deputado e Vereador, na época o mais votado do Crato, momento em que representou nossa cidade na comissão que se deslocou ao Rio de Janeiro em 1959 quando JK presidia o pais na campanha que pleiteava a vinda da energia de Paulo Afonso, lide que terminou vitoriosa com a eletrificação do Cariri em 28 de dezembro de 1961. Repito aqui um outro fragmento do meu discurso pelo seu centenário: (...) Não é à toa como diz o Dr. Napoleão Tavares neves a casa verde que meu avô residia, a casa verde da esperança tem na sua rua lateral a data da eletrificação do Cariri, rua que por sinal sempre foi conhecida como o beco do Dr. Borges.
Foi um dos co-fundadores das antigas faculdades de Filosofia, Economia e Direito, alicerces da Futura Universidade Regional do Cariri. Sendo Professor e Diretor destas Instituições por diversos anos.
Como amante da vida campestre adquiriu fazenda, chegando a presidir por diversos anos a Associação dos Criadores do Cariri. Sendo inclusive também um dos Fundadores da EXPOCRATO, um dos maiores eventos do agro-negócio no Brasil. Membros de diversos grêmios literários como a Academia de Uruguaiana, dentre outras, era membro do ICC (Instituto Cultural do Cariri), por sinal foi seu presidente. Presidiu o Rotary por duas gestões. Defensor Público e Advogado renomado em diversos Estados do Nordeste. Segundo muitos foi o maior tribuno do Cariri. As querelas de júri entre o meu avô e o Dr. Luiz de Borba Maranhão encantavam os moradores do Crato. Era uma extensão de ensino, uma enciclopédia. Alguns amigos me contam que seus avôs mandavam seus filhos assistirem os júris, vão lá e aprendam o que esses homens sabem.
Presidente do Conselho superior do Jornal do Cariri foi um dos seus colunistas mais atuantes. Sendo seus artigos publicados em diversos jornais da região e da capital. Um dos Fundadores do periódico Itaytera e tantas outras obras culturais. Sendo uma de suas últimas campanhas a defesa da permanência do Parque de Exposição do Crato, a melhoria da URCA e a estrada para encurtar a distância para fortaleza passando por Caririaçu e cidades adjacentes, o que levará a sua terra natal tão querida e outras próximas o desenvolvimento e que felizmente teve o privilégio de vê-la se concretizando. Por sinal aproveito aqui a ocasião, por maias que saiba que sendo via estadual é praxe receber designação da sigla do Estado e numeração, que a rebatizem como o nome do meu avô, por ter sido ele um dos seus maiores defensores.
No caso da possível remoção da Expocrato, momento em que tive o prazer de representá-lo em audiência pública, quando pude explanar meus pensamentos para o Secretário do Desenvolvimento Agrário Camilo Santana. Inclusive escrevi artigo que brevemente será publicado pelo periódico a Província.
Em vida recebeu centenas de Homenagens. O Título de cidadão cratense, a maior comenda municipal, a medalha Bárbara de Alencar, a Medalha Padre Ibiapina, a Comenda Advogado Padrão da OAB-CE, e criação de medalha com seu nome pela OAB-Sub-Secção Crato, sendo o primeiro homenageado seu filho Zé Gil, dentre outras.
Bem na verdade o que aqui transcrevi é apenas um breve resumo de sua vida pública.
Cotidianamente viveu os 102 anos lúcido e produtivo. Escrevia diariamente e estava concluindo mais um livro: As grandes mulheres cearenses. Ao todo foram vinte e cinco, entre breves biografias, como Iraides, in memoriam, como obras de grande crivo pesquisador e densas em complexidade e volume, como História da Comarca do Crato, primeiro sobre o tema e alguns outros sobre o Direito.
Foi-se o patriarca fisicamente, mas permanecerá o legado de um dos maiores benfeitores do Crato.
Deixou uma família de milhares entre os Borges, os Bezerras, os Oliveiras e tantas outras famílias que a nós se somaram através de casamentos e verdadeiras amizades
Em meus artigos, aulas e alguns esboços de livros que venho preparando, alguns alunos me perguntavam as fontes do que escrevia ou falava. Dizia, nada disto está escrito. Foi-me dito por uma testemunha ocular, o meu avô.
O que me conforta neste momento é saber que ele partiu da forma que desejaria ir. Lúcido e produtivo e sem muito sofrimento. Ele temia definhar.
Até o último minuto não esquecia a sua Cariri. Ao contrário do que muitos fariam; afinal filhos criados, vida feita; este homem continuava, à medida do seu alcance, a se dispor em defesa daquilo que acreditava. Continua sendo o mesmo tribuno de sempre, o mesmo causídico do passado.
As letras digitadas em sua antiga máquina de datilografia repercutiam da mesma forma que seus inflamados e vibrantes discursos. As suas últimas cartas ocupavam o mesmo papel de suas antigas petições. Quem o conheceu o admira. E reconhece o benefício que ao longo destas décadas DR. BORGES presenteou nossa cidade e toda a Região
É com grande emoção que transcreverei aqui uma breve citação que proferi em seu velório representando a família.
Vovô
É com profundo sentimento de perda que leio essas palavras, que resolvi transcrevê-las,
Diferentemente do que costumo fazer, temendo que a emoção silenciasse a minha voz.
Primeiramente, mais uma vez, gostaria de repetir o grande afeto e admiração que todos nós: netos, filhos, bisnetos, trineto, genros, noras e sobrinhos sentimos pelo senhor.
Parafraseando o Fran, o neto mais velho, nunca achamos perda da própria personalidade quando diziam: “Este é neto do Dr. Borges.” Muito pelo contrário.
Sua vida, pautada na luta e na solidariedade sempre será para nós um exemplo.
Mas lhe fiz este verso:
“Os desafios são temidos e impiedosos
Transpostos são amados e respeitados, pois nos fazem crescer”
Seus desafios foram muitos. O senhor. os venceu e foi e sempre será um grande homem. Para mim o maior que esta terra conheceu.
Sentirei muita saudade de nossas conversas sobre História e das querelas jurídicas que o Sr. me falava.
Aqui vovô estão reunidos praticamente todos os seus familiares e amigos pra dizer que estamos nos despedindo, com a crença que o Santo Deus em breve nos permitirá um reencontro.
O Cariri inteiro lhe é grato pelos relevantes serviços prestados à nossa Região, que aqui me furto de enumerá-los em face da dimensão.
No desfazer desse dia lhe entregaremos nas mãos do Senhor e dos nossos entes queridos que já se foram. A grande matriarca , a querida vovó Iraides lhe abraçará, como seus filhos Iris ( a primeira), Tio Beto, Tio Zé, Xandinho , além dos seus pais, irmãos e sobrinhos. Neste momento, no fim da tarde, momento em que o Sol começa a desbotar,
Por volta da 17:00 hs, quando o sepultaremos, “assistiremos ao crepúsculo de dois sóis”.
Com muito amor seu neto Ângelo Borges Papaléo e todos os demais familiares”
Gostaria de agradecer as autoridades aqui presentes, os representes da Universidade Regional do Cariri e os colegas do meio jurídico e a todos amigos do meu avô que ele soube construir ao longo dos seus 102 produtivos.
O que me conforta é saber que meu avô partiu pra outro plano da forma que ele desejava. Até o último minuto lúcido e produtivo, tendo uma morte menos sofrível possível.
Muito Obrigado
Ângelo Borges Papaléo